quinta-feira, maio 27, 2010

Clara Claridade de Clarice




“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”


A doçura de reconhecer mora no compartilhar.
Compartilhando claridades com Clarice.

terça-feira, maio 18, 2010

Isso é o que é




(...) Será então agora que devo começar a respirar? Depois que os dias se acabaram vieram outros mais dias do que os de antes. Será agora que vai começar? Dois sinais foram dados e o rei não chega, está atrasado? não vem? Desconfio amargurada que sua realidade não é. Dentro do que penso ser real o rei ainda não se fez. Agora é o que é. Passou. É. Mas o rei nunca foi para que eu pudesse lembrar que ele era. Ser é a semente. Pensando bem, ainda que caia em terra infértil, continuará a ser aquilo que é. Mas nunca será árvore. Talvez não tenha nascido para sê-la. Talvez tenha vindo ao mundo para ser semente toda vida. Então, ela não perde nada. Cumpre a função de ser o que é, mas não será aquilo que deveria. Deveria? Poderia? Gostaria. Pobre semente sem árvore. Que pode fazer sem tronco, sem frutos, sem sombra? Humilde, não precisa de nada. Nem água, nem sol, nem você, nem eu, nem de si mesma. Pode tudo. Pode? Ela continua lá... não precisa lembrar de si... Continua sendo o que é sem esperar nem rei nem terra fértil. Toca o terceiro sinal, o rei real.. acho que vejo seu espectro. Traz alguma coisa na mão. Mas ainda não vejo... ainda está escuro... (...)


p.s.: Palavras em cima de palavras. Acho que preciso mudar o nome desse blog.


Annette Peacock; Goodbye to the Past.