segunda-feira, julho 20, 2009

Início?

(...) Eunice achava que não havia mal em mostrar os olhos nus. Ninguém a tinha dito que era proibido; matava as coisas em que eles (não) acreditavam. Pobre de Eunice! Andava por aí, calma e tão real! Até que, um dia desses, tropeçou em uma pedra. E a pedra disse:
- "Já tive, também, esses olhos que traz abertos ao mundo. Mas ele não gostou. Não, não. Eu mirava toda aquela gente e não via. Ninguém refletia o que meus olhos diziam. Triste, fechei minhas pálpebras com tanta força que virei pedra."
- Está louca. Que mal pode haver num par de olhos?
- "Nunca percebeu que andam todos vendados? É por isso que sorriem tanto."
- Pensei que fossem felizes. Não é por isso que sorrimos?
- "Um dia, foi. Até que começaram a se desentender. Criaram tantas palavras, tantos nomes que tudo passou a ser diferença. Falavam coisas mas seus olhos contrariavam a boca. Ah, Eunice.. antes desse falatório, éramos reais!"
Eunice tentou esconder o quão impressionada estava e ficou muda por um tempo. A pedra sabia seu nome.
- Está assustada? A pedra falou.
- Não. Um pouco. Como sabe se não falei nada e não tem mais olhos?
- Aprendi a ver sem eles. Olhe bem para mim, menina.
Eunice abriu bem seus olhos grandes para ver a pedra. Foi quando se deu conta que era a coisa mais real que ela já encontrara. Mais que uma pedra, era um espelho. Eunice sentiu-se tão plena naquele instante que, cansada, piscou os olhos. (...)

Um comentário:

Satiro disse...

Cuidado, pois se refletir demais pode acabar se tornando espelho...